Traição

Por Oriah

“Não me interessa se a história que você me conta
é verdadeira.
Quero saber se é capaz
de desapontar o outro
para se manter fiel a si mesmo.
Se é capaz de suportar uma acusação de traição
e não trair sua própria alma,
ou ser infiel e,
mesmo assim, ser digno de confiança”.

“Muitas vezes procuramos alguém em quem possamos confiar mais do que em nós mesmos. Talvez isso ocorra porque sabemos com que freqüência nos traímos.

É desagradável quando alguém nos surpreende quebrando promessas antigas. No entanto, se vivemos plenamente, é inevitável que isso ocorra às vezes, porque as mudanças são inevitáveis e os compromissos, para que continuem vitais, devem ser refeitos e renovados. Muitas vezes evitamos constatar que quebramos promessas, fingindo que nada mudou.

Inconscientemente, fazemos esses arranjos silenciosos em todos os lugares – na família, nas comunidades espirituais e nas empresas.

Nós nos traímos quando negamos a mudança que nos apavora, quando mantemos a ilusão aparente de que tudo permanece igual. Se alguém dá nome à traição, tudo começa a ser esclarecido. Quando nossa negação do que ocorreu é tão profunda que parece total, o choque da revelação é avassalador. Sentimo-nos perdidos, atordoados, destruídos.

Quando reconhecemos a traição e nos responsabilizamos pela decisão de romper acordos, por saber que alguém quebrou um trato conosco, sofremos com a perda antecipada da inocência. Para voltar a confiar, temos de estar dispostos a encarar o que restou da inocência – a ingenuidade deliberada que insiste em negar a verdade e a rejeição por ser demasiadamente dura.

Fingir não trair ou não estar sendo traído pode fazer a traição ser mais fácil de suportar naquele momento, mas aprender a viver com a verdade é o que abre as portas à sabedoria necessária para confiar e ser digno de confiança uma vez mais.

Se não conseguimos conviver com nossa necessidade de renovar os acordos que fizemos, quebramos a única promessa que realmente devemos manter um com o outro – a de sermos verdadeiros. Isso significa encontrar tanto a coragem de sermos autênticos com nós mesmos quanto um modo de conviver com o efeito que nossas atitudes provocam nos outros, mesmo quando não há má intenção e ninguém possa ser culpado.

O verdadeiro dano da traição reside nas mentiras que dizemos a nós mesmos e aos outros, as mentiras que nos fazem perder a fé em nossa capacidade de reconhecer a verdade e agir de acordo com ela.

Devemos pesar o preço que nossa alma pagará se mantivermos o acordo – o preço do que é essencial ao que nós somos – em relação o preço que os outros pagarão se ele for rompido.

Às vezes, podemos decidir nos sacrificarmos por outra pessoa. Pergunte a qualquer pai a respeito dos pequenos sacrifício diários. Decisões que nos custam algo importante que são feitas por amor, podem ser uma escolha da alma.

Questão: Diga-me se é capaz de fazer a escolha definitiva, mesmo quando ela for difícil, mesmo quando ao fazê-la, alguns o considerarem infiel. É capaz de fazê-la sem excluir-se ou excluir a outra pessoa – não importa quem seja o traído ou o traidor nesse momento – do seu coração? Isso é o que eu quero saber. É isso que quero que aprendemos juntos, que nos ensinemos mutuamente, amparando um ao outro quando as escolhas forem difíceis”.

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